Uma memória Por Timor 1992, Max Pam

Em 1992, por alturas de Março o Lusitânia Expresso estava em águas perto de Timor. Tendo sido bloqueado por navios indonésios e ameaçado por disparos caso continuassem viagem. O destino do Lusitânia Expresso seria aportar a Dili e serem depositadas flores no cemitério de Sta. Cruz. Isso não aconteceu. O Massacre de Sta. Cruz não era mesmo para ficar esquecido nos escaparates silenciosos da comunidade internacional e a Missão Lusitânia Expresso conseguiu visibilidade relevante e é um dos marcos do apoio exterior à causa de Timor. Agora numa volta simples a caixas de cartão, deparo-me com uma imagem que já não via faz longo tempo.

Dela quero falar. A imagem é do fotógrafo australiano Max Pam. Nesse ano de 1992 , em Novembro, este é um dos fotógrafos que fazia parte do programa de exposições, workshop’s e conferências da 12ª edição dos Encontros de Fotografia de Coimbra, evento referência da “fotografia” em Portugal. A estória é simples. Aquando da preparação do evento, os diferentes trabalhos dos fotógrafos a expôr íam chegando ao secretariado dos Encontros, abriam-se e logo nos deliciávamo-nos todos com as “iguarias”. Uma das imagens que este fotógrafo iria ter no seu trabalho, era esta. Quando a vi pela primeira vez arrepiei-me e a associação ao barco Lusitânia Expresso foi imediata. O barco que a criança tem nas mãos chama-se também Lusitânia mas a sua história em 1915 é realmente escabrosa.

Nos Encontros de Fotografia acontecia sempre um estado de ansiedade quando se abria o rolo de cartazes mandados imprimir para a divulgação do evento anual, estaria tudo bem? Quando o rolo foi aberto no chão da Galeria do Centro de Estudos de Fotografia foram segundos decorridos perante o que se observava. Havia erros numa área essencial: ausência de logotipos de patrocinadores (nem digo quais que é de estarrecer) e duas gralhas no lettering. Nesse ano optou-se por confiar a maquetização/feitura do cartaz a duas pessoas que afinal deram mal conta do recado… e menos de 3 minutos depois de se verificar o espalhanço toma-se a atitude. “Vamos fazer outro, isto é inacreditável”, alguém disse. Estávamos a cerca de uma semana do início do evento.

É aqui que bate a fotografia de Max Pam e o Lusitânia Expresso. Quase todas as exposições desse ano estavam já emolduradas e encostadas por filas naquela Galeria, prontas para serem montadas nos diversos espaços expositivos da cidade.

O director do festival começa a mexer nas molduras e levanta dois exemplos possíveis, a vociferar com a questão. A minha cabeça está virada para a fila do Max Pam e levanto aquela imagem. Estávamos quatro pessoas e acho que a todos aconteceu a mesma coisa – é esta!

Esta mesma imagem acaba por ser o cartaz da 12ª edição dos Encontros de Fotografia de Coimbra. Um cartaz de um simplicidade inegualável. Nele constava apenas esta imagem e assinatura de Max Pam… não havia um único logotipo, não havia uma única referência a patrocínios, apoios e essas cenas que “sujam” a imagem mas que dão obviamente jeito para se fazerem coisas. Foi fantástico. Nunca gostei tanto de um cartaz, seja pela sua simbologia e pelos imponderáveis estava ali a decidir-se algo que também tinha a ver com Timor-Leste, mas também pela sua simplicidade.

A fotografia original, não mais que um 30x40cm a preto e branco é desmontada da moldura e levada em mão a Lisboa ao mesmo local de onde vieram os cartazes com erros. No dia seguinte os novos cartazes estavam de novo e bem, em Coimbra para serem colocados nos painéis de publicidade!

Com o embalo anímico da questão até a forma como o press-release foi feito acabou por ser curioso. O BLITZ numa sua edição, faz uma página inteira com a imagem e associa texto directo à questão de Timor-Leste e do Lusitânia Expresso.

Ando à procura dessa edição…

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2 comentários

  1. Há que encontrar um exemplar, de facto …
    Bjs

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  2. Alguém se lembra de uma exposição que vinha em caixas de madeira com o carimbo de produção da Indonésia?

    Quando se devolveu a exposição, todas as caixas levavam o relembório histórico sobre Timor-Leste e as respectivas descrições das atrocidades praticadas pela Indonésia (com o beneplácito apoio de muitos países do Ocidente) escrito na língua “de sua majestade” e o apelo claro para não usarem produtos da Indonésia… 1991, Novembro.

    Para onde seguiu esta exposição? Não me lembro.

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