Um artigo mau escrito

Timor-Leste: A língua Portuguesa em Dúvida

Um artigo mau escrito – o nome da língua indonésia é, simplesmente, o indonésio, não ‘o bahasa indonésio’. É tão absurdo como chamar o português ‘Portuguese língua’ em inglês. E o vilipéndio da Kirsty Gusmão, que está a promover o tétum, não o inglês, é típico de alguns escritores lusófonos, que acham que o português seja a única língua que os timorenses devem aprender, e que a aprendizagem de qualquer outra língua é um compló pelos ‘anglo-saxónicos’.

A promoção do tétum, ao lado do português, como a língua co-oficial, é um objetivo louvável que os governos portugueses e brasileiros devem apoiar, em vez de uma atitude lusotropicalista que, infelizmente, algumas pessoas em Lisboa ainda têm. Ironicamente, o desenvolvimento rápido do tétum é graças à lusificação, ou re-lusificação, que deu ao tétum uma fonte de vocabulário moderno.

Quando estava em Timor Leste, vi este artigo em tétum na imprensa local, que ilustra perfeitamente a situação lá – pode-se perceber que o autor usa muitos empréstimos portugueses, para dizer que o português ‘la benefisia estudantes’ (não beneficia estudantes)

Infelizmente tem havido uma tendência à parte de muitos estangeiros para dizer aos timorenses que precisam de escolher entre uma língua e uma outra, mas não é uma caso de ‘ou…ou’, mas de ‘e…e’. É pior do que um Torre de Babel, é um apartheid linguística, que é muito triste.

É fácil para dizer que Timor Leste deve usar o português em vez do indonésio, mas realizar isto é mais difícil. Livros e materiais audio-visuais na língua indonésia são mais disponíveis, e mais baratos, do que quaisquer equivalentes na língua portuguesa. O indonésio tem a infraestrutura para apoiá-lo e sustentá-lo em Timor Leste, o português não.

O problema não é a distância dos países lusófonos, que é um pretexto patético nesta epoca – o Reino Unido é longe de Timor Leste também, mas milhares de timorenses trabalham lá. Quanto a falantes do português na Ásia, há mais falantes de português em Japão, por causa de imigração do Brasil, do que em Timor Leste, Macau ou Goa.

O problema na verdade é que os países lusofónos têm pouco contacto com ao Sudeste Asiático e o Pacífico – há mais comerciantes e turistas italianos, por exemplo, do que portugueses ou brasileiros. O português sofre de ser a Cinderela ou o Patinho Feio das línguas latinas, sempre marginalizado em favor do francês, o espanhol, ou o italiano, e na Ásia a situação é ainda pior, porque a atitude à aprendizagem das línguas estrangeiras é de materialismo e ultilitarismo.

Se os timorenses não queiserem aprender o português, é por esta razão muito simples: não têm nenhum incentivo. Se os lusófonos quiseram que os timorenses se interessem na língua portuguesa, precisam de interessar-se em Timor Leste, e a região da Ásia e o Pacífico.

Este paragrafo do artigo é incrível –

“Muitos defendem ainda que o próprio Tétum poderia assumir em exclusividade o papel de língua oficial. No entanto, é normalmente omitida a existência de pelo menos 15 variantes do Tétum e muitos outros dialectos locais.”

Não há 15 variantes do tétum, e de qualquer maneira, a língua franca nacional é a variedade lusificada, o tétum praça. E o que são estes dialectos? Dialectos da mesma língua? Não, são línguas tão diferentes da outra como o inglês, o português e o finlandês.

“Omitido é também o facto do Tétum ser uma língua incompleta que continua a assimilar neologismos, designadamente do Português.”

Que atitude arrogante e superior! O que está a sugerir? Que o tétum tenha de usar palavras exclusivamente indígenas sem quaisquer empréstimos estrangeiros? O que tem de chamar um helicóptero em vez de ‘elikópteru’ – ‘liras nakdulas’, que significa ‘asa girante’? Ou um telefone em vez de ‘telefone’ – ‘dale dook’, literalmente ‘falar de longe’?

Se o autor aplicasse esta lógica a outras línguas, o inglês não seria uma língua ‘completa’ porque assimilou milhares de palavras do francês. E na Indonésia, o indonésio está a assimilar mais e mais palavras inglesas, que serão inteligíveis a falantes do português – yurisdiksi/jurisdição, reduksi/redução, advokat/advogado, prioritas/prioridade, biologi/biologia, antipati/antipatia, reuni/reunião, departemen/departamento, manuver/manobra, emosional/emocional, obsesi/obsessão …. etc? Todos são cognatos.

Geoffrey Hull escreveu há dez anos –

“À luz desta tradição centralista, não deve surpreender ninguém que tantos timorenses proeminentes que louvam da boca para fora o valor do tétum como língua nacional, na práctica, pouco ou nada fazem para promovê-lo, e mantêm-se tão dedicados como sempre ao português. Também não deve surpreender-nos que certos timorenses são cépticos e até mesmo hostis às tentativas de refinar o tétum como meio literário moderno.” Traduzido do inglês original.

Felizmente, esta atitude mudou muito, e há um maior aceite do tétum como uma língua moderna, mas infelizmente, há ainda pessoas desta tradição centralista.

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2 comentários

  1. As linguas faladas em Timor são importantes para a manutenção da diversidade cultulral timorense e constitui-se em uma de suas riquezas. Ken, seu artigo é de grande valor.

    Alf
    Br

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  2. Uma opiniao bem escrita e valida. Mas que a verdade seja dita, o Tetum ainda esta muito longe de ser capaz de ser empregue completamente em alternativa a outra lingua dita 'moderna' como o Portugues e o Ingles. Simplesmente ainda nao existe uma massa critica de literatura disponivel para poder ser utilizada exclusivamente como alternativa as outras linguas.

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