Um idealista e um sonho morreram no Iraque – Sérgio Vieira de Mello

Documentário sobre os últimos momentos da vida de Vieira de Mello, o diplomata que buscou dar à ONU seu papel avalista da paz mundial, será lançado nesta semana

03 de maio de 2010 | 0h 00
John F. Burns * – O Estado de S.Paulo

THE NEW YORK TIMES

Para os EUA, o longo pesadelo no Iraque está cada vez mais próximo do fim e o Pentágono já se prepara para cumprir um cronograma que prevê a retirada de todas as tropas americanas até o fim do próximo ano. Mas apesar de todos os debates acirrados desde a invasão de 2003, o reconhecimento dos custos e o complexo cálculo moral e político talvez tenha apenas começado. Nesse desafio estão sendo ativamente concentradas as energias criativas dos EUA.

Como ocorreu em todas as guerras americanas, o imbróglio do Iraque deu origem a um rico acervo de livros, filmes e documentários, como Guerra ao Terror, o impiedoso retrato de uma unidade americana especializada em desarmar bombas, que este ano dominou o Oscar.

Mas para quem viveu a guerra quando já parecia provável que ela acabasse em desastre sem nenhum dos elementos redentores, eles agora parecem provisoriamente disponíveis: uma retirada cautelosa em várias etapas, a eleição de um governo no Iraque e pelo menos uma possibilidade de estabilidade política em prazo mais longo, embora um tanto precária. E há um novo elemento muito interessante no arquivo de não-ficção.

Sérgio, um documentário da HBO que estreará na televisão americana na quinta-feira, conta a história do atentado devastador realizado pela Al-Qaeda contra o complexo da ONU, em Bagdá, em 19 de agosto de 2003, no qual morreram 21 funcionários da organização, incluindo o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, representante especial de Kofi Annan no Iraque, o então secretário-geral da organização.

Sérgio – como era conhecido por todos à sua volta, e até pela por legiões de admiradores que não o conheciam – tinha 55 anos, e era um diplomata brasileiro do mais alto nível. Um homem extraordinariamente bonito, carismático e talentoso, com uma considerável bagagem de negociações de conflitos bem-sucedidas nas missões que lhe foram confiadas pela ONU de Bangladesh, quando tinha menos de 30 anos, à Bósnia, Líbano, Kosovo e Timor Leste, na última década de sua vida, a ponto de ser cotado para o cargo de futuro secretário-geral da ONU.

Sérgio era tão fascinante que os outros homens eram mais dados a admirá-lo do que a procurar falhas em sua armadura. Como o próprio presidente George W. Bush, que exerceu pressões para que lhe fosse dada a missão da ONU em Bagdá. O então presidente comentou em particular, depois de uma reunião com Sérgio na Casa Branca, no verão de 2003, que se sentira desmazelado ao lado do brasileiro sorridente, invariavelmente bronzeado em seu terno imaculado. A morte desse homem da forma como ocorreu, com uma prolongada agonia, deveria ter sido considerada um prenúncio de um imenso desastre no Iraque, como de fato foi.

Para este repórter e seus colegas da sucursal de The New York Times em Bagdá, o atentado ao escritório da ONU foi um sinal de alarme dos mais convincentes. Caminhando em meio aos escombros, quando voltei ao Iraque depois de uma longa pausa no verão, dei-me conta de que naqueles destroços havia um aviso: se a Al-Qaeda havia chegado até a ONU, mais cedo ou mais tarde chegaria até nós. Em poucas semanas, decidimos construir as proteções que a ONU havia rejeitado, uma fortaleza protegida por um muro à prova de explosões, que nos dava pelo menos algumas chances de sobreviver a um atentado suicida.

Se a meia tonelada de explosivos que detonaram debaixo da janela do escritório de Sérgio ecoou em todo o mundo, não foi apenas por causa da destruição imediata que ela provocou, mas também porque assinalou com uma terrível certeza, mais que todos os outros choques anteriores da ocupação americana, que no Iraque, tão distante do ufanismo da “missão cumprida”, tudo caminhava para a violência acelerada. E a violência acabaria se manifestando em uma escala e com uma brutalidade que estigmatizaria a presidência de Bush, levantando, como nunca desde a Guerra no Vietnã, um questionamento da afirmação de liderança moral e política dos EUA no mundo.

Mas Sérgio não é Fahrenheit 9/11, o documentário demagógico de Michael Moore de 2004, sobre o presidente Bush e sua guerra ao terror. Não era a intenção de Greg Baker, o diretor de Sérgio, fazer um filme polêmico.

Drama humano. A ideia do filme foi inspirada por uma discussão, no início de 2008, com Samantha Power, que escreveu Chasing the flame: Sérgio Vieira de Mello and the fight to save the world, o primeiro relato completo do que aconteceu no atentado. Nos comentários da imprensa sobre o filme, Baker disse: “O incrível drama humano da operação de busca e salvamento” pareceu um argumento muito impressionante. Mas ele viu também na carreira de Sérgio um contraponto à desilusão que ele sentia em relação à ONU, depois de fazer Ghosts of Rwanda, um filme de 2004 sobre a passividade do mundo durante o genocídio ruandês no início dos anos 90.

“Para ser honesto, não tinha um grande conceito da ONU”, ele disse. “Eu conheci muitos funcionário das Nações Unidas arrogantemente preocupados apenas em fazer carreira por meio dos países pobres em seus reluzentes SUVs, aparentemente indiferentes ao sofrimento que estava diante dos seus olhos. No entanto, quanto mais ouvia falar em Sérgio, mais fui ficando intrigado. Aparentemente, ele era diferente, um herói complicado para a nossa época complicada.”

Baker concentra-se nas horas que se seguiram imediatamente ao atentado, quando Sérgio e Gil Loescher, um acadêmico americano que estava com ele no escritório quando houve a explosão, ficaram presos, de cabeça para baixo, com as pernas esmagadas, no meio de toneladas de escombros que eram tudo o que restava da fachada do edifício de três andares.

Mas o filme narra uma história muito maior do que a tentativa fracassada de salvar Sérgio. Ele analisa sua carreira na ONU, falando de como Sérgio colocou seu idealismo para trabalhar efetivamente em algumas das zonas de conflitos mais insolúveis do mundo, incluindo a tentativa de guiar o Timor Leste cristão para a independência da Indonésia esmagadoramente muçulmana, um trabalho que talvez o tenha colocado na lista de alvos da Al-Qaeda. E se o filme mostra os erros americanos no Iraque, também mostra o preço que a ONU e Sérgio pagaram pelo seu idealismo – ou ingenuidade – ao não se darem conta do potencial de destruição das tropas da Al-Qaeda no Iraque; idealismo que levou Sérgio a resistir às pressões americanas para que se preparasse para defender-se do ataque que o matou.

Como Annan, Sérgio não fazia segredo de seu menosprezo pela invasão do Iraque e sua determinação em manter uma considerável distância entre a missão da ONU e as forças de ocupação. O filme capta um raro momento de ira quando um repórter iraquiano, pouco antes do atentado, menciona a afirmação da Al-Qaeda de que a ONU e seu chefe em Bagdá seriam “instrumentos” dos americanos. Inicialmente, ele sorriu conforme sua marca registrada, depois endureceu o maxilar e respondeu: “Meu amigo, é bom não sugerir por um segundo sequer que estamos aqui para apoiar os EUA, ou suas tropas. Está entendido?” Nos bastidores, Sérgio reforçou esta posição exigindo que os americanos retirassem uma unidade da cavalaria blindada postada ao lado da entrada do complexo da ONU, e abrissem um acesso fechado até a rodovia próxima a fim de impedir que os veículos batessem na frágil barricada como o caminhão carregado de explosivos fez. Com estas exigências, Sérgio, que quando jovem marxista havia estado nas barricadas em Paris, em 1968, deixou clara sua intenção de proteger a reputação da ONU entre os iraquianos, mas é possível que também tenha selado o seu destino.

Nas horas da sua agonia, enquanto jazia impotente em meio aos escombros, deve ter refletido no improvável curso dos acontecimentos que depositou suas últimas esperanças nas mãos de dois reservistas americanos. As cenas mais fortes do documentário são aquelas em que os dois soldados, que não tinham nada, apenas uma bolsa feminina e um pedaço de cordão de cortina para retirar os escombros, relatam o horror do sofrimento dos homens presos entre os pedaços de concreto, incluindo o momento em que utilizaram um serrote enferrujado para amputar as duas pernas de Loescher. Este foi retirado, abrindo uma passagem para Sérgio, que morreu enquanto seu companheiro era levado de helicóptero. Loescher sobreviveu.

Como fecho do documentário, Baker revela outro fato que tira um pouco a aura de Sérgio naquele cenário de morte. Andre Valentine, na época sargento militar com a função civil de médico do corpo de bombeiros em Nova York, diz que implorou a Sérgio, quando menino coroinha católico, que pedisse a Deus que o salvasse. “E ele disse, “Maldito Deus, foi Deus que fez isto””, lembra Valentine. /

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

in Estadao.com.br aqui

* É GANHADOR DE DOIS PRÊMIOS PULITZER

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