Inauguração do Acervo Bibliográfico do Instituto Internacional para o Intercâmbio e Estudos Asiáticos

Na imagem: Kirsty Sword Gusmão e A. Barbedo de Magalhães
(Foto © Uma Lulik | Margarida Az)

Síntese

A Biblioteca da Faculdade de Engenharia do Porto passa a albergar cerca de 2500 obras sobre Timor Leste, a Indonésia e a Política Internacional relacionada com a questão Timorense. A inauguração do acervo decorre no dia 18 de Junho, pelas 11h00, e conta com a presença de Kirsty Sword Gusmão, presidente da ALOLA Foundation, Antoninho Baptista Alves, Director do Arquivo & Museu da Resistência Timorense, e representantes da Fundação Mário Soares [Alfredo Caldeira] e da Galp Energia [Fernando Gomes], entre outros. []” (site da Faculdade de Belas Artes | Universidade do Porto)

Na imagem: Professor A. Barbedo de Magalhães, Presidente do IASI; Professor Carlos Costa, Director da FEUP; Drª. Kirsty Sword Gusmão, ; Dr. Fernando Gomes, Administrador da GALP Energia; Antoninho Baptista Alves, “Hamar”, Director do Arquivo & Museu da Resistência Timorense e; Dr.ª Ana Azevedo, Directora da Biblioteca da FEUP. (Foto © Uma Lulik | Margarida Az)

Discurso de


Kirsty Sword Gusmão *

pela altura da inauguração do Acervo Bibliográfico do IASI ** FEUP ***

Porto, 18 de Junho de 2009

“O papel da solidariedade portuguesa e da solidariedade australiana na luta pela autodeterminação e pela dignidade do Povo Timorense

É para mim um prazer e uma grande honra estar hoje aqui, na presença de um dos mais reverenciados e admirados amigos, o Professor António Barbedo de Magalhães, e na companhia dos estudantes da Universidade do Porto.

Os amigos de Timor-Leste e a sua aposta na autodeterminação são originários de muitas partes do mundo, incluindo Portugal e Austrália. No caso da Austrália, o principal alvo da nossa campanha pela justiça para o povo de Timor-Leste foi o nosso governo, e a sua cumplicidade na anexação e ocupação desde o princípio.

No caso de Portugal, sucessivos governos e o povo tinham um objectivo comum e ombreavam no seu objectivo de libertar Timor-Leste da opressão e ditadura. O movimento de solidariedade global uniu povos, comunidades e organizações de todo o mundo, fomentando amizades duradouras, parcerias e alianças, muitas delas intactas e florescentes ainda hoje.

A minha primeira visita a Portugal em 1995 aconteceu como resultado do meu envolvimento pessoal no movimento da resistência e deu origem a toda uma série de ligações, pessoais e organizacionais, que continuam a beneficiar-me e a Timor-Leste até hoje. O evento em que eu participei em 1995, em Lisboa, foi a Conferência Inter-Parlamentar sobre Timor -Leste, organizada pelo meu amigo António Barbedo de Magalhães.

Tal como a independência trouxe novos desafios ao povo e aos líderes de Timor-Leste, assim também ter amigos do país obriga a adaptar o seu apoio e intervenções a todo um conjunto de novas circunstâncias e necessidades. O meu marido tem dito, em muitas ocasiões ao longo dos últimos 10 anos, que a independência exige que o povo timorense desenvolva uma nova marca de patriotismo, uma melhor adequação às necessidades actuais do nosso país. Hoje em dia exigimos dos nossos amigos muito mais do que apenas paixão e indignação pelas injustiças sofridas no passado.

Precisamos de assistência concreta para o nosso processo de construção da nação sob a forma de assessoria técnica, formação e reforço das nossas instituições nacionais. Muitos de vós aqui presentes forneceram o apoio tão desesperadamente necessário, pelo qual vos agradeço em nome do povo do meu país de adopção. Desde a independência, alguns dos nossos amigos por todo o mundo convenceram-se de que as suas competências e orientação não combinavam com as nossas novas circunstâncias, e optaram por voltar a sua atenção para outras lutas nacionais pela paz e pela liberdade.

Infelizmente, muitas nações por todo o mundo ainda aspiram à libertação e nacionalidade alcançada pelo pequeno Timor-Leste e não faltam causas para apoiar.
Permitam-me, por um momento, focar-me na actualidade de Timor-Leste. Trata-se das realizações dos últimos 12 meses que eu gostaria de focar e partilhar convosco neste ponto. Como estou consciente de que, para alguns de vós, pelo menos, as últimas notícias que leram sobre Timor-Leste relatam histórias de turbulência, de raiva, de juventude descontente e toda uma litania de, aparentemente, irresolúveis problemas sociais.

No mês passado, Xanana, eu e os nossos filhos, juntamente com membros do Governo, funcionários públicos, jovens e crianças, fizemos uma marcha que começou no Palácio do Governo e terminou num parque no centro de Díli, em frente ao Hotel Timor, para celebrar a sua inauguração. Para aqueles de vós que estejam familiarizados com Díli, recordar-se-ão que este parque acolheu durante dois anos, a seguir à crise de 2006, muitas centenas de deslocados internos. Era um dos mais vergonhosos campos de IDP, com incidentes quase semanais, envolvendo jovens do campo que apedrejavam os transeuntes. Hoje, o parque denominado ‘Parque 5 de Maio’, é um belo e ajardinado local de diversões, com escorregas, baloiços e outros equipamentos para brincar, com recantos que convidam ao descanso e à reflexão. A transformação dum local evocativo de medo e conflitos numa zona de tranquilidade e recriação para as crianças e famílias é um símbolo das mais amplas mudanças e alterações ocorridas em Timor-Leste, que passa do conflito para a Paz e da Assistência de Emergência para o caminho do Desenvolvimento.

Em Timor-Leste, hoje, existe uma nova e crescente confiança pública nas nossas instituições democráticas.

Embora eu considere não ser minha função fazer a promoção do governo do meu marido, acho justo dizer que ele e os membros do 4º Governo Constitucional de Timor-Leste estão a fazer um bom trabalho. O país apresenta um crescimento sem precedentes de 12%, apesar da crise económica global, uma realização impressionante para um país que apenas tinha conhecido taxas de crescimento negativas ou muito baixas desde 2002. O Governo conseguiu executar mais do seu orçamento em um ano e meio do que a combinação de todos os governos ao longo dos cinco anos anteriores. Um sistema de acreditação das nossas instituições terciárias foi posto em prática e um plano de descentralização da administração do governo em todos os sectores tem sido gradualmente implementado. A formação de professores tem sido implementada a nível nacional e um programa escolar obrigatório de 9 anos foi anunciado. O Investimento em saúde, educação e agricultura duplicou em 2008.

Mas, o mais significativo de tudo tem sido a estabilidade do Governo para consolidar a Paz.

Agora, permitam-me voltar, por um minuto, ao assunto das mulheres e crianças em Timor-Leste uma vez que são a minha principal preocupação e paixão hoje em dia.
Existem enormes expectativas sobre as mulheres e as suas capacidades de contribuir para a vida económica e social das suas famílias e comunidades mas ainda não lhes são concedidos o reconhecimento e poder na vida pública e política. Desiguais relações de género, dentro da família, perpetuadas por valores tradicionais e patriarcais e costumes que contribuem também, significativamente, para a grande incidência de violência doméstica. Medo, falta de confiança no sistema judicial, falta de conhecimento dos direitos das vítimas e serviços de apoio limitados, tudo contribui para o facto de um largo número de casos de violência doméstica tendam a não ser divulgados. Tendo dito isto, a violência dentro de casa é hoje o mais reportado crime em Timor-Leste, representando aproximadamente 50% de todos os crimes que são alvo da atenção da nossa Força de Polícia Nacional. Eu fundei a Fundação Alola em Março de 2001com o objectivo de chamar a atenção local e internacional para os problemas da violência baseada no género em Timor-Leste. Entre outras coisas, a Fundação procura impulsionar a capacidade de um largo número de organizações de mulheres de aceder aos fundos e recursos que necessitam para responder às necessidades imediatas das mulheres na comunidade.

Como mãe de três filhos pequenos, tenho lutado contra a alta taxa de mortalidade materno-infantil, outra prioridade das minhas actividades. Como meio de apoio aos esforços do nosso Governo para melhorar a saúde das mães e crianças, fundei a Associação Nacional da Amamentação de Timor-Leste em Novembro de 2003. As vidas de um largo número de recém-nascidos podem ser salvas, todos os anos, se for praticada a amamentação exclusiva, uma vez que muitos deles morrem com má nutrição e infecções gastrointestinais causadas pela preparação de substitutos do leite materno em condições de insalubridade.

Como professora de formação e agora como Embaixadora da Boa-Vontade para a Educação, tenho dado particular atenção ao sector da educação no nosso país, em particular no que toca à participação das raparigas na escolaridade. Infelizmente, devido a pressões económicas e culturais, uma larga percentagem de raparigas não completam a escolaridade secundária. O programa de bolsas de estudo da Fundação Alola já apoiou centenas de jovens mulheres, por todo o país, para obterem uma educação básica e, portanto, competirem em pé de igualdade, com os homens, no mercado de trabalho e em lugares de educação superior.

Constitui uma grande preocupação minha e do nosso Ministro da Educação a qualidade dos serviços de educação que são prestados aos nossos jovens, que são a grande parte da população de Timor-Leste. Juntamente com o problema de infra-estruturas e recursos de ensino inadequados, enfrentamos um enorme desafio na capacitação dos nossos professores. Aproximadamente 85% dos nossos professores não têm formação ou qualificação formais, foram recrutados à pressa em 2000, para preencher o vazio deixado pelo êxodo no final de 1999 da maioria dos professores de origem indonésia. A complexidade da nossa realidade linguística também constitui um enorme impedimento para que as nossas crianças obtenham óptimos rendimentos educacionais. A nossa Constituição define o Português e o Tétum como as duas línguas oficiais da nossa nação, e ainda só uma pequena percentagem da nossa população, incluindo os nossos professores, fala, lê e escreve bem um destes idiomas. Para a maioria das crianças de Timor-Leste, o Português é a terceira ou quarta língua, e embora o desejo de aprender Português seja enorme entre os nossos professores e jovens, a realidade é que levará talvez uma geração para que a língua de Camões se enraíze na nossa sociedade e nas nossas escolas. Pela primeira vez na história o nosso povo está a ser encorajado a escrever e ler na sua língua nacional, Tétum. Uma ortografia normalizada para o Tétum tem sido desenvolvida pelo nosso Instituto Nacional de Linguística, mas os nossos jornalistas, professores, funcionários públicos e estudantes só agora estão a começar a aplicá-la.

Existe uma falta de recursos escolares de toda a espécie, mas particularmente trágica, a meu ver, é a escassez de materiais de leitura para jovens, em Tétum, a língua franca entre as nossas 16 línguas nacionais. Variadas instituições, principalmente em Portugal e na Austrália, estão a ajudar-nos a resolver esta situação, com currículos e textos relacionados e manuais de ensino desenvolvidos nos seus países para as nossas escolas primárias e secundárias e um conjunto de leituras para os alunos da pré-primária publicadas na Austrália pelo Instituto Mary MacKillop. Em Janeiro passado, a Fundação Alola publicou uma edição traduzida para Tétum do livro infantil, da famosa autora Australiana, Mem Fox, “Quem quer que sejas”. É nosso objectivo publicar pelo menos um título em cada ano, incluindo algumas edições bilingues de Tétum-Português. Os membros da nossa equipa do Programa de Educação conduzem acções de formação com professores de todo o país ensinando a ler para crianças e a usar livros na sala de aula. Mas, ainda temos um longo caminho a percorrer até que as nossas crianças e jovens tenham acesso a toda a gama de materiais de leitura e de aprendizagem que eles necessitam para fomentar uma cultura de leitura, para abrir os seus olhos para o mundo à sua volta e para melhorar drasticamente a qualidade da sua experiência educacional. Isto é vital se quisermos atingir os Objectivos de Desenvolvimento do Milénium com a inscrição universal em e conclusão da escolaridade primária até 2015.

Como Australiana de nascimento, preocupa-me que estes problemas da língua, escolhas de língua e desenvolvimento da língua parece ter conduzido a uma clivagem entre Austrália e Portugal, pelo menos no que diz respeito às relações e cooperação com Timor-Leste. A Austrália é frequentemente entendida como querendo impor a língua Inglesa em Timor-Leste e a verdade é que muitos australianos, na sua ignorância sobre a importância do legado do Português em termos culturais, históricos e linguísticos para o nosso povo, questionam a escolha do Português como língua oficial. Contudo, como dois dos mais importantes parceiros de Timor-Leste, as duas nações beneficiarão se abandonarem este debate e explorarem vias em que ambos possam cooperar mais eficazmente em direcção à conquista daquilo que é o nosso objectivo e sonho comum para Timor-Leste: uma vida de dignidade e verdadeira independência para o seu povo.

Obrigada.”

_____________

* Drª. Kirsty Sword Gusmão, fundadora e presidente da Fundação Alola, Embaixadora de Timor para a Educação, presidente da Comissão Nacional da UNESCO de Timor-Leste, activista e defensora de Timor-Leste, companheira e mulher de Kai Rala Xanana Gusmão.

** International Institute for Asian Studies and Interchange/ Instituto Internacional para o Intercâmbio e Estudos Asiáticos

*** Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto

Anúncios

One comment

  1. Quanto a questão do desenvolvimento do português em Timor-Leste sugeriria que se funda-se uma pequena vila (nas montanhas, presumo) onde fosse habitada por timorenses que se dispusessem a falar a lígua de Camões juntamente com seus filhos. Este núcleo poderia servir de centro de referência do português para a Ásia, atraindo chineses de Macau e australianos que quisessem fazer uma “imersão” na língua portuguesa. Esta iniciativa vinculada ao turismo poderia, penso eu, dar bons frutos.
    Um abraço
    Alfredo
    Br

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: