Ignora-se ainda hoje quantos morreram em Santa Cruz – D. Ximenes Belo

fotografia de arquivo / DR

Texto em: http://noticias.sapo.pt/lusa/artigo/64dd86f030b6a291e62079.html

13 de Novembro de 2008, 01:08

Aveiro, 13 Nov(Lusa) – D. Ximenes Belo, arcebispo resignatário de Díli e Prémio Nobel da Paz, disse quarta-feira que, 17 anos depois do massacre do cemitério de Santa Cruz, ainda está por fazer a contabilidade dos mortos.

Convidado para falar sobre o massacre de Santa Cruz na Biblioteca Municipal de Estarreja, D. Ximenes Belo, na época bispo de Díli, disse não se saber ao certo quantas pessoas morreram nos incidentes e relatou os momentos então vividos.

“Repito aqui o que já disse em Díli em 1991: é melhor perguntar aos indonésios porque foram eles que mataram e foram eles que recolheram os corpos. Até hoje, não sabemos exactamente quantos foram os mortos, os feridos e os desaparecidos, até porque nos meses seguintes os familiares não comunicavam que os filhos estavam desaparecidos com medo de represálias das autoridades indonésias”, disse.

Para D. Xímenes Belo, o massacre de Santa Cruz foi decisivo para Timor-Leste conseguir a independência.

“Respeitando as famílias que perderam os seus filhos, podemos afirmar que as vidas dos jovens massacrados no dia 12 de Novembro de 1991 serviram de trampolim para a continuação da luta e independência de jure e de facto de Timor-Leste.

“Em memória desses jovens mártires timorenses, elevo a Deus as minhas humildes preces pelos vivos e pelos mortos e presto a minha homenagem aos que tombaram em Santa Cruz”, evocou.

Na conversa com o público em Estarreja, D. Ximenes Belo deu conta de que, dias antes, foi grande a afluência de jovens às confissões, enchendo as igrejas, numa preparação espiritual para aquele acto heróico.

“Muitos jovens foram comungar. Dois ou três dias antes do massacre as igrejas estavam cheias de jovens e muitos foram-se confessar e ficamos admirados com tanta afluência. Viemos a saber mais tarde que tinham combinado entre si confessar-se porque já sabiam que iam morrer e mais valia estarem preparados para morrer defendendo a pátria, do que morrer em pecado mortal”, relatou.

Revivendo o dia 12 de Novembro de 1991, D. Ximenes Belo admitiu que inicialmente fechou a porta aos jovens que vinham fugidos de Santa Cruz mas que, perante a suplica destes, lhes franqueou a porta.

“Vi chegar grupos de jovens em direcção à minha casa e ao princípio mandei fechar a porta mas eles gritavam que estavam feridos e a morrer. Mandei abrir a porta e eram 150 rapazes e raparigas que tinham vindo de Santa Cruz.

Eu próprio vi que outros jovens foram interceptados pelas tropas indonésias que já tinham cercado a minha casa e foram mortos e presos ali na estrada.

Os indonésios trataram de recolher imediatamente os corpos. Manuel Carrascalão viu-os a carregar 50 corpos”, contou.

O arcebispo resignatário de Dilí explicou que depois se dirigiu ao cemitério e viu “um grande grupo de jovens, despidos da cinta para cima e com as mãos à cabeça, preparados para serem metidos nos camiões militares”.

“Vim a saber depois que alguns foram atados de pernas para o ar e soqueados como se fossem sacos de boxe e alguns não resistiram”, disse.

Na noite de 12 de Novembro, segundo D. Xímenes Belo, a cidade ficou sem luz e foram praticados mais assassínios no hospital: “Havia feridos graves que foram levados para a casa mortuária onde, com grandes pedregulhos lhes esmagavam a cabeça”.

Nessa noite, um enfermeiro do hopital que era cunhado de um seminarista telefonou e deu conta de que já tinha lavado 70 corpos de jovens mortos.

No dia 14, em visita que fez ao hospital, verificou que as enfermarias estavam todas cheias de jovens e adolescentes, muitos estavam totalmente irreconhecíveis devido às torturas. Alguns deles eram os que se tinham acolhido na sua casa e conclui que muitos foram mortos porque regressou ao hospital no dia seguinte e o número tinha reduzido.

A Indonésia nomeou uma comissão de inquérito cujos resultados não foram credíveis e que apontou para um total de apenas 19 mortos e 90 feridos, concluindo que não era um massacre, mas um incidente.

Apesar da pressão internacional para que a comissão revelasse o número certo, corrigiu para 50 mortos e 90 feridos.

No processo de descolonização de Timor-Leste, segundo o Nobel da Paz, todos erraram: “Errou Portugal porque abandonou, errou a Indonésia porque invadiu e erraram os timorenses porque não se souberam unir”, concluiu.

MSO

Lusa/Fim

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