ONG acusa tropas da ONU de abuso sexual de menores

A new report released today by Save the Children UK shows that children living in conflict-affected countries fear to report sexual exploitation and abuse by UN peacekeeping troops and humanitarian aid workers.
Menina de 12 anos diz ter sido estuprada por dez soldados de missão da ONU na Costa do Marfim

Download do Relatório “No One to Turn To”
SALVAR AS CRIANÇAS DOS QUE AS VÃO SALVAR
Editorial do Público
28.05.2008, José Manuel Fernandes

O relatório da organização britânica Save the Children mostra o lado mais sombrio de muitas intervenções humanitárias – ou de alguns dos chamados “trabalhadores humanitários”
Já se sabia que os soldados enviados em missões de paz cometiam abusos. Mesmo quando o faziam sob as cores das Nações Unidas.
Também já se sabia que os responsáveis das Nações Unidas poucas possibilidades tinham de punir comportamentos graves como a violência gratuita, os roubos, o contrabando ou, pior, os abusos sexuais cometidos com crianças.

As Nações Unidas são o que são os seus membros, e estes nunca lhes passaram o controlo directo sobre tropas no terreno. Os casos descobertos e denunciados eram, na melhor das hipóteses, tratados pelas hierarquias militares dos países que forneciam os soldados.
Já era menos conhecido que os pecados não moravam apenas nas camaratas de soldados enviados em missões, que por vezes não entendiam, para países distantes e estranhos, antes podiam envolver os profissionais das missões humanitárias.

Não só os que seguiam sob enquadramento directo das Nações Unidas, mas também os das chamadas “organizações não-governamentais”, as ONG.

O relatório ontem divulgado por uma destas ONG, a Save the Children, para além de ter a coragem de reconhecer as suas próprias falhas, revela uma realidade muito mais dramática do que a habitualmente referida.

Lendo-o, chocam particularmente os testemunhos que recolheram de crianças que ouviram no Sudão, no Haiti ou na Costa do Marfim, testemunhos tão crus como cruéis. Testemunhos que valem, pela força da palavra que é dada a algumas das vítimas, o que muitas vezes não se retira das estatísticas.
As Nações Unidas já sabiam, ou deviam saber, que as suas missões lidavam com este tipo de problema. Basta recordar que há 15 anos, durante a missão no Camboja, entre 1992 e 1993 o número de prostitutas passou de seis mil para 25 mil, grande parte delas crianças.
Tal como deveria saber que não são apenas os soldados vindos de países pobres que cometem abusos, pois conhecem-se os casos que envolveram suecos na Eritreia.
Ou ainda que o pessoal civil qualificado se mostra por vezes tão “incivilizado” como o soldado vindo da mais remota aldeia do mundo, havendo exemplos disso em abusos cometidos por americanos e alemães na Bósnia.

Ora se o conhecimento dos antecedentes não evita a repetição agravada dos abusos, e que estes também sejam cometidos por elementos supostamente movidos pelos mais nobres ideais humanitários, cabe perguntar como foi possível e porque é que tão pouco foi feito para prevenir casos como os que relatamos nesta edição.
O “como foi possível” é quase uma não-pergunta. Soldados conscritos ou voluntários das ONG partilham as mesmas fraquezas da condição humana, e se estas levam alguns aos excessos conhecidos, a verdade é que é chegada a altura de falar com abertura e franqueza: enviados à força ou mobilizados por um ideal, são raros, raríssimos, os que participam neste tipo de missões das Nações Unidas que não retirem delas compensações financeiras.

Os militares recebem mais, as Nações Unidos também pagam mais, e é um segredo muito mal escondido o rendimento que muitas ONG retiram do seu envolvimento neste tipo de operações. Não será regra, mas é prática corrente.
E a muitos nem sequer pesa na consciência, pois estão apenas a ser melhor remunerados em nome do bem da humanidade e do sacrifício de estarem longe dos seus.

Mais: o que em muitas missões humanitárias se paga em logística e pessoal pode chegar a ultrapassar o que se entrega às populações a que se está a acorrer. Sendo esta a regra do jogo, sendo há muito sabido que o indesmentível altruísmo de muitos voluntários anda a par com o mercenarismo de outros voluntários, exigia-se que as Nações Unidas tivessem mais atenção aos riscos colocados pelas “fraquezas humanas”.

E que adoptasse, pelo menos como base de partida, algumas das sugestões deste relatório da Save the Children.

“Nas guerras morre muita gente e é fácil encontrar crianças órfãs que podem ser facilmente violadas. Afinal são pobres e encaram os abusos sexuais como uma forma de sobreviver”, relatou um sudanês.
E sobreviver pode ser apenas ter comida nesse dia, pelo que uma malga de arroz pode chegar para obter um favor sexual. É assim, e mesmo sendo assim só se conhece uma parte da realidade.
Sendo assim, só por ingenuidade se pode pensar no altruísmo sem mácula dos que aterram no Haiti, no Sudão ou na Costa do Marfim.

Se as Nações Unidas e os responsáveis das ONG não compreenderem estes factos elementares, então serão sempre numerosas as crianças para salvar da sua “ajuda humanitária”.

http://jornal.publico.clix.pt/

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