Viúva do poeta Borja da Costa recorda a clandestinidade e a tortura

Foto: Lenalorosae

Díli, 17 Mai (Lusa) – Para Maria Genoveva da Costa Martins, caminhar nas sombras do Jardim Borja da Costa, em Motael, Díli, é um passeio de três décadas a uma tragédia pessoal e à História de Timor-Leste.

Francisco Borja da Costa, nascido em 1946, poeta e militante independentista, era o marido de Genoveva. Foi morto no primeiro dia da invasão indonésia, a 07 de Dezembro de 1975, não longe do jardim que hoje lhe presta homenagem como mártir da luta timorense.
O relato da viúva de Borja da Costa, nascida em Ermera em 1956, é o mais recente testemunho recolhido em filme pela associação Memória Viva, fundada pela jornalista australiana Jill Jolliffe e dedicada aos ex-prisioneiros políticos timorenses.

Genoveva Martins sobreviveu à invasão mas passou duas vezes pela prisão e a tortura, em Outubro de 1979 e em Dezembro de 1991.
A viúva passeando em paz no Jardim Borja da Costa em Díli é a primeira imagem do filme.

O trabalho, apresentado e debatido na Sala de Leitura Xanana Gusmão, em Díli, foi visto à mesma hora que

Xanana Gusmão, actual primeiro-ministro, abria a reunião dos ministros da Defesa lusófonos, com um coro cantando o hino “Pátria”.

Os versos do hino nacional timorense foram escritos por Borja da Costa, que também redigiu o manifesto da Fretilin (Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente) e o poema-hino do partido, “Foho Ramelau”.

Os percursos do poeta, da sua mulher e do futuro guerrilheiro cruzaram-se, muitas vezes, no início do movimento independentista timorense e da convulsão política em Timor após a Revolução de 25 de Abril de 1974 em Portugal.

Genoveva Martins contou à agência Lusa que foi desde cedo militante da Fretilin, privando, pela mão de Borja da Costa, com dirigentes como Nicolau Lobato e Vicente Reis “Sahe”, que também seriam mortos após a invasão.
No 07 de Dezembro de 1975, Genoveva Martins não foi apanhada com o marido porque tinha ido dias antes a Baucau (leste), em trabalho do partido.

Borja da Costa, que estava em Díli, “foi arrastado para a ponte cais e daí atiraram(-no) ao mar não sei onde. Até aqui, não sabemos, a própria família, o próprio filho não sabe o sítio onde ele foi enterrado”, relata a viúva do poeta no filme hoje exibido em dupla sessão.

Nos anos da ocupação indonésia, Genoveva Martins usou a sua profissão de professora numa área rural para servir a rede clandestina da Resistência.

A primeira detenção, durante oito meses, foi a pior, contou Genoveva Martins à Lusa. Foi torturada em sessões onde, na sua expressão, a “incendiavam” com pontas de cigarro.

“Mas eu graças a Deus como tive, tenho famílias que são da Apodeti, que são defensores da integração, daí é que eu fiquei presa só durante oito meses. Salvaram-me no sentido de não continuar a ter mais violências físicas. E então fiquei detida não já dentro da prisão mas fora, durante um ano”, conta a viúva de Borja da Costa no filme-testemunho.

Em Ermera (oeste), região montanhosa e de plantações de café, Genoveva Martins escondeu Xanana Gusmão em sua casa.

“Vieram dizer-me que Xanana estaria num lugar a certa hora, para eu vir buscar. Eu desconfiava que era uma armadilha dos indonésios para me fazerem dizer onde ele estava. Mandei o estafeta pedir um papelinho, uma assinatura, de Xanana. E ele mandou-me uma assinatura”, contou Genoveva Martins à Lusa.
“À hora combinada, ele veio. A primeira coisa que me disse foi: `São Tomé!` Ver para crer. E fiquei com esse nome na (rede) clandestina” acrescentou Genoveva Martins.

“Nós éramos as mulheres que arrumavam o mantimento, medicamentos, roupas, continuamos a dar o nosso apoio às Falintil”, conta também a viúva de Borja da Costa.

“E nós tínhamos também o plano de localizar as mulheres em sítios onde o inimigo tinha os seus postos de vigia. Daí colhíamos informações através das nossas velhas que iam para lá”, recorda Genoveva Martins no seu filme.
“Faziam-se de mensageiras, colhiam as informações e chegavam até nós”.
Foi com o primeiro marido que Genoveva Martins diz ter aprendido a importância da participação da mulher na luta timorense.

A professora voltou a ser presa após a captura de Xanana Gusmão pelas forças indonésias em Díli.
“Em (19)91, eles tinham os instrumentos todos. Os instrumentos de choques e electricidade aí ao pé. Mas assim como eu disse, naquela altura quando fui capturada, esses nossos familiares que continuavam a dar apoio em (19)75, eles também continuaram a dar apoio”, conta Genoveva Martins sobre o “cerco” que sofreu em Ermera.

“E então houve uma pessoa amiga que é agora polícia, conseguiu meter-me no carro da Polícia e levar-me para Atambua, Kupang. E fiquei à sombra da segurança deles, até os meus familiares da integração conseguirem descobrir o sítio”, no lado ocidental da ilha.

Genoveva Martins pretende que filmes com o testemunho de ex-prisioneiros políticos “sirvam para a nova geração aprender as experiências duras que passámos e a viver em paz, sem violência e sem discriminação”.
O seu poema preferido de Borja da Costa não é “Pátria”. Prefere “Um Minuto de Silêncio”, onde o seu marido escreveu que “É tempo de silêncio/ No silêncio do tempo”.

A Associação Memória Viva já registou 52 testemunhos de ex-prisioneiros em filme, 12 dos quais estão editados e cerca de 40 transcritos para português, a língua de trabalho do projecto.

© 2008 LUSA – 2008-05-17 14:15:04

UM MINUTO DE SILÊNCIO

Calai

Montes

Vales e fontes

Regatos e ribeiros

Pedras dos caminhos

E ervas do chão,

Calai

Calai

Pássaros do ar

E ondas do mar

Ventos que sopram

Nas praias que sobram

De terras de ninguém,

Calai

Calai

Canas e bambus

Árvores e “ai-rús”

Palmeiras e capim

Na verdura sem fim

Do pequeno Timor,

Calai

Calai

Calai-vos e calemo-nos

POR UM MINUTO

É tempo de silêncio

No silêncio do tempo

Ao tempo de vida

Dos que perderam a vida

Pela Pátria

Pela Nação

Pelo Povo

Pela Nossa Libertação

Calai – um minuto de silêncio…

Fonte: http://dbraga.blogspot.com/2008/03/francisco-borja-da-costa-poema.html

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